quinta-feira, junho 28, 2012

Genes e preconceitos

A idéia para escrever este post, aparceu-me, há dias, digo melhor, há meses, quando a minha filha mais nova estava grávida e, em coversa, à mesa, com a minha neta de 8 anos, filha de uma outra filha. Estávamos então a tentar escolher um nome que gostássemos para o bebé que estava para nascer. Ao fim de algum tempo a minha neta disse: "avó, se a tia tiver um bebé pretinho vai chamar-se Wilson e se fôr pretinha vai chamar-se Flávia. 

Nessa altura lembrei-me também que a minha filha grávida, tema da escolha dos nomes, só aos 9 anos descobriu que uma coleguinha sua, que a acompanhava no percurso escolar desde o infantário, era negra, ao ver uma fotografia da classe e exclamando: "mãe, a Mara é castanha!" 

Para a minha neta era perfeitamente normal, a tia ter uma criança negra, apesar de na família não existir ninguém de pele escura. A minha filha nunca tinha reparado na cor da pele da amiga. Estas crianças não tinham algum preconceito em relação ao tema raça. 

Então, como aparece o preconceito? Será que existe uma explicação evolutiva? Lá estou eu sempre a pensar em evolução e, portanto, em genes! 

Lembro-me de ter lido um livro interessantíssimo chamado "Blink!" e magistralmente escrito por Malcolm Gladwell, sobre, como alguém disse "o pensamento que não é pensado". Este autor chega à conclusão que certos factos referentes à aparência das pessoas (altura, constituição, raça, género) fazem desencadear associações muito fortes. Por exemplo, pode-se olhar para uma pessoa e, apenas por isso, acharmos que é inteligente, íntegra e corajosa. Fazemos conotações tão fortes com a aparência das pessoas que interrompem o processo racional do pensamento. E é isto que está na base do preconceito. 

A pesquisa sobre estas associações mostra que formamos muito mais depressa associações entre duas idéias se elas já existirem na nossa cabeça. O nosso inconsciente absorve silenciosamente todos os dados a partir das nossas experiências, das pessoas que conhecemos e com quem convivemos, das coisas que aprendemos, em casa, na escola, nos livro, nos filmes, etc. e com isso acaba por formar opiniões. 

Chego à conclusão que aprendemos os preconceitos com as pessoas adultas com quem convivemos na infância. Se andarmos para trás, de geração em geração, chegaremos aos nossos ancestrais que viviam num ambiente muito diferente do nosso. Aí era importante reconhecer os indivíduos diferentes do gruoo de pertença, pois representariam um perigo para a sobrevivência. Nessa altura da história da humanidade, o que existia não era preconceito mas sim luta pela sobrevivência, reconhecimento intuitivo do perigo. A vantagem é obvia - reconhecendo em tempo útil o perigo podemos reagir, fugindo dele ou tomando acções que o neutralizem. Esta é uma vantagem que favorece a sobrevivência, e, como tal, pode sofrer a acção da selecção natural. E isso ficou inscrito no nosso património genético e nós não nos podemos "libertar" assim tão facilmente. 

Não estou a defender o preconceito mas as nossa atitudes inconscientes podem ser incompatíveis com os nossos valores deliberada e conscientemente assumidos.

 É um assunto incómodo. Pelo menos, para mim. 

Quem estiver interessado pode fazer os testes em www.implicit.harvard.edu.

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